Entrevista com Marisa Moura

por Márcio Vassallo, autor e jornalista, escreve no Jornal do Brasil no RJ

1. Em que momento nasceu a Página da Cultura? Há quanto tempo ela existe? Como você virou agente literária e de que modo a vida de agente vira você pelo avesso?
R. Eu penso que a Página da Cultura nasceu justamente porque a vida de agente virou pelo avesso o meu plano de ter uma empresa de projetos culturais de literatura, vinculados às leis de incentivo. Preparada por pesquisa de mestrado do perfil dos patrocinadores brasileiros, fui buscar projetos junto a escritores e encontrei inúmeros originais para vender às editoras. Isto começou na Bienal São Paulo de 1994 e até hoje a agência literária sempre exige mais do que a área de projetos, que continua mas com limitações.

2. Você tem uma equipe de pareceristas para avaliar textos de novos escritores e analisar a viabilidade de publicá-los. O que é decisivo para você trabalhar com um novo autor? Fale sobre a sua rotina de trabalho.
R. A Página da Cultura tem o desejo de descobrir talentos novos. Entendi que isto necessitava de organização. A saída foi estruturar um grupo de pareceristas para auxiliar na seleção dos textos, principalmente pela quantidade de originais e autores inéditos que nos procuram. Todavia, essas leituras não possuem espaço entre as correspondências, fax, contatos, reuniões, contratos, eventos etc. etc., no dia de trabalho de doze horas. As leituras são feitas às noites ou nos fins-de-semana e feriados. É sempre difícil encontrar a hora de descansar.

3. Quais os melhores caminhos para um autor conseguir o seu espaço no mercado editorial brasileiro? Que dicas práticas você daria a um iniciante?
R. O escritor iniciante precisa apenas decidir escrever muito e sempre. O ideal é juntar a esse propósito muita leitura, para formar seu universo cultural e um sério grupo de leitores que colaborem no processo de criação e desenvolvimento de sua obra. O ótimo texto sempre sobrevive (publica-se), quando encaminhado a editoras que publicam obras similares à sua. Pode demorar, mas publica-se. O bom original é bem mais difícil de ser escolhido.

4. Há pouquíssimos agentes trabalhando no Brasil. O que mais dificulta o surgimento de novos profissionais da área: a falta de qualificação, o acesso restrito ao mercado, a remuneração? Aliás, a maioria das pessoas não sabe como funciona a remuneração de um agente. Todos trabalham do mesmo modo?
R. É muito importante constatar que há poucos agentes sediados no Brasil, trabalhando para escritores brasileiros. Porém existem muitos estrangeiros, europeus, americanos, que atuam direto no Brasil, representando editoras e autores estrangeiros ou mesmo brasileiros. Isto é facilmente comprovado em qualquer catálogo de feiras internacionais do livro.
A implantação de uma agência literária tem suas próprias características. A básica é que o retorno financeiro e a realização acontece a longo prazo.
Não adianta planejamento de um mês para outro, nem mesmo para o ano seguinte. Talvez esse seja o diferencial que restringe novas iniciativas ou à permanência das que surgem.
A remuneração, até onde consegui informações, é por porcentagem. De maneira geral, os agentes recebem entre 10 a 35% das obras vendidas. Quem paga o agente não é quem compra dele, é quem o contrata, isto é, autores e editores estrangeiros ou não.
Se todos os agentes trabalhassem do mesmo modo: nos EUA é fácil conferir nos catálogos da (editora tal e tal); no Brasil, na Europa e na Ásia o mesmo não acontece. Fica aqui a sugestão para pesquisa.

5. Quais as maiores qualidades de um agente literário?; Os editores brasileiros gostam de trabalhar com agentes? Qual o grande desafio da sua profissão?
R. A maior qualidade é ser um excelente negociador de idéias, pontos de vistas, valores monetários, enfim tudo que envolve a transformação do projeto escrito em livro, peça teatral, filme etc. O grande desafio, que procuramos ter claro como agência de escritore, livros e projetos, é a nossa responsabilidade de prestar serviço nesse segmento que, de uma forma ou de outra, assume o registro de toda a cultura humana. Enfim, somos mais uma página da cultura da nossa época.

6. Quantos e quais autores você representa? Você também representa editoras e agências estrangeiras no Brasil?
R. A nossa primeira meta é ser uma agência de vinte e poucos escritores. A longo prazo, talvez alteraremos esse plano. Não trabalhamos com agências estrangeiras porque ainda não desenvolvemos esses contatos. Representamos cerca de vinte editoras estrangeiras.

7. Qual a sua formação? E a sua experiência profissional (caso não tenha respondido na primeira pergunta da entrevista)?
R. Graduação em Língua e Literatura Portuguesas. Professora de Português, mas só lecionei redação em aulas particulares, escola de primeiro e segundo graus e grupos de criação de texto. Mestre em Comunicação, especificamente em Literatura, (Cultura) como ferramenta de comunicação institucional.

8. Você tem sócios?
R. Não tem como você abrir uma empresa de agenciamento no Brasil sem sócios, pelo menos um. Tenho uma sócia minoritária que não atua dia a dia no escritório.