Tribuna da Bahia

O escritor baiano no mercado mundial

 Adinoel Motta Maia

 


Por que é tão difícil publicar um livro, quando ainda não se é um escritor consagrado? Podemos sintetizar, para responder satisfatoriamente: os escritores profissionais trabalham com agentes literários. A velha, ingênua e amadorista prática de mandar originais para editoras às vezes funciona, mas é uma loteria. Editores brasileiros já me disseram receber até dezenas de originais por dia, de gente da qual nunca ouviu falar, dos lugares mais desconhecidos do Brasil. A grande maioria não sabe escrever e do que resta, poucos têm o que dizer, que interessem a pessoas dispostas a comprar um livro. 

O agente literário trabalha nos dois sentidos: representa interesses de editores, buscando autores e livros que possam ser bem vendidos e representa autores que estão sem editora para sua obra. É o profissional competente para ligar o criador ao produtor, o artista/cientista ao industrial. Até hoje, para se ser escritor de sucesso, na Bahia, precisa-se, depois de ter um bom texto, achar um padrinho para apresentá-lo a um editor. Jorge Amado já foi esse padrinho, para muita gente. Há outros, menos influentes. Quem não tem, acostuma-se a receber cartas delicadas, dos editores, dizendo que infelizmente já estão com sua programação editorial completa, para "este ano", devolvendo-lhe os originais.

Quando a Fundação Cultural do Estado da Bahia decidiu participar da Feira do Livro de Frankfurt de 1997, convidando-me para assessorá-la, coloquei esse trabalho como o mais importante, de quantos pudessem constituir a missão baiana em terras alemãs. Um dos pontos altos da Feira é o enorme estande montado pelos organizadores para os agentes literários de todo o mundo. 

Conseguir a parceria de qualquer um deles para abrir um canal profissional para os escritores baianos de boa obra, inclusive os inéditos, parecia-me um feito histórico de independência, livrando os nossos criadores da bajulação, do beija-mão, da mendicância intelectual, que os obriga a ficar junto ou em volta, como satélites, de algumas personalidades que podem viabilizar a publicação de um livro.

Neste ano, pela primeira vez, encontrei uma agente literária brasileira no catálogo da Feira, atendendo no referido estande. Tive, ali uma entrevista, com ela, H. Katia Schumer. Além desta, no entanto, três outras agentes literárias brasileiras operavam na Feira, baseadas no estande da Câmara Brasileira do Livro ou circulando por ali em contato com editores do Brasil.

Também conversei com elas, duas das quais já representando muitos autores bem-sucedidos e conseqüentemente bastante seletivas, abertas apenas à possibilidade de descobrir um novo importante criador ou autor de best sellers: Ana Maria Santeiro e Lúcia Riff. A terceira destas, a mais nova das quatro, com apenas 10 autores em sua agenda, apresentou-me alguns dados do seu modo de trabalhar, que pareceram bastante adequados às necessidades dos escritores que ainda estão, como se diz "no mato sem cachorro": Marisa Moura.

Mercado Aberto 
Há evidentemente, também, os agentes estrangeiros. Alguns, apesar de representarem autores best sellers internacionais, estão lá , esperando atrair outros desse porte ou até mesmo novatos com grande potencial. O fato é que o mercado mantém-se aberto para quem tem obra de boa qualidade e de interesse para o público e não há necessidade de pedir favor a ninguém. O caminho profissional é este e não se precisa ter um agente francês para ver seu livro publicado na França, embora esse possa ser, em algum caso, o modo mais fácil de atingir aquele mercado. Em demorada conversa com Marisa Moura, duas vezes interrompida para ela atender compromissos agendados, foi-me dito: "O mercado do livro tem um Deus e uma Lei: tudo é exceção." O Deus da Exceção, afirma ela, determina que cada caso é um caso e cada escritor deve ser encarado como ele é, com suas necessidades e suas exigências.

A Fundação Cultural está voltando de Frankfurt com um saldo positivo. Além de mostrar-se para milhares de pessoas do book trade internacional, seu estande foi continuamente visitado por muita gente de bom olfato, que vai ficar ligada: a equipe que foi para lá realizou contatos importantes em outros estandes; aprendeu-se, com o interesse por alguns dos livros levados, qual deve ser a linha editorial a ser desenvolvida para penetração internacional, sem prejuízo para outros programas, de interesse cultural local; abriu-se um canal para a distribuição de livros da Fundação em Portugal, na América Ibérica e no próprio Brasil, inicialmente; abriu-se outro canal, para levar mais editores baianos à Feira de Frankfurt; montou-se uma "base" ali, a partir do que se poderá atingir todo o mundo, com competência e paciência e finalmente, como já disse, estabeleceu-se um modus operandi para o escritor profissional ter acesso às editoras brasileiras e estrangeiras.

Tanto para o escritor que já tem obras publicadas, como para aquele que está apenas começando a criar, há grandes chances de vencer lá fora. O que importa é a qualidade do que faz e o interesse que sua obra pode despertar. Não há espaço suficiente, aqui, para dizer tudo. O fato é que a Literatura Baiana dobra uma esquina e muda de rumo com a ida da Fundação Cultural do Estado da Bahia à Feira do Livro de Frankfurt. Muito mais há para dizer e será dito.

Ninguém perde por esperar o que vem por aí. A nossa Fundação Cultural não tem estrutura para fazer tudo o que precisa ser feito, mas o que se trouxe de lá pode e deve ser passado para as pessoas, as entidades e as empresas baianas que se capacitem para alavancar profissionalmente a criação, a produção, a distribuição e a venda de livros. Esta série de artigos termina hoje, mas os leitores atentos serão informados de tudo, neste ou em outro espaço da Tribuna da Bahia. Além do que, teremos encontros, reuniões, palestras, num movimento em direção ao atendimento das expectativas e necessidades do escritor que quer se profissionalizar, sem prejuízo para a salutar prática cultural amadorista de quem paga para publicar sua obra, como paga para fazer uma festa de aniversário, realizar uma viagem ou adquirir uma casa de praia. Isso também é cultura e dever ser estimulado...

Adinoel Motta Maia é escritor e professor aposentado da UFBA