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Facilitar o contato entre autores e editoras e, conhecendo bem o perfil de cada um, estabelecer uma relação em que todos saiam ganhando. Segundo os profissionais do mercado, esta seria a definição mais aproximada da função do agente literário. Enquanto alguns não se importam de ser chamados de intermediários, outros preferem não usar essa autodenominação.
"O agente literário trabalha para ele mesmo. Não intermedeia, está no meio de dois pólos complementares. Seu objetivo é tentar arranjar uma parceria em que todo mundo ganhe, oferecendo uma estrutura que ajuda e muito", explica a agente Marisa Moura, que assessora 20 clientes - entre editoras e autores nacionais - como Antonieta Dias de Moraes, Moniz-Bandeira, Maria Cristina Cavalcanti Albuquerque e Fernando Vaz¹; e as empresas estrangeiras Ars Editions (Alemanha), Hachette (França), Lutterworth (Inglaterra) e Nelson Word (EUA).
"A palavra intermediário tem uma conotação bem negativa, que sugere intromissão ou etapa desnecessária, que apenas encarece e complica uma negociação", observa Lúcia Riff. Entre os autores que representa, estão Lygia Fagundes Telles, Luiz Fernando Verissimo, Érico Veríssimo, Marina Colassanti e "mais uma turma maravilhosa de autores brasileiros", ao lado de vários editores e agentes estrangeiros como Harper Collins, Bantam Books, Hyperion e Norton. "O agente literário é muito mais facilitador, um elemento que faz uma negociação acontecer, apresenta as partes, resolve os entraves, agiliza o processo e melhora as relações. É o especialista que orienta o autor nos meandros do mercado editorial", acrescenta.
A profissão é relativamente recente no Brasil e, como todo serviço pioneiro, parece ainda enfrentar alguma resistência, seja por parte dos autores ou das editoras. "O agente literário apanha dos dois lados e tem que defender ambos", brinca a uruguaia Karin Schindler, que trabalha exclusivamente com editoras e agentes literários estrangeiros, da Inglaterra, dos EUA, da Alemanha e da Suíça. Em sua opinião, as editoras nacionais sabem que os agentes podem dar uma grande ajuda. "Fazemos boa parte do trabalho burocrático para eles, de forma mais rápida e fácil. As editoras preferem negociar com alguém que está aqui e não no exterior, e falando em sua própria língua", explica Karin, que domina os idiomas inglês e alemão.
"Quando iniciei, em 1977, a resistência era maior. Muitos editores achavam que, se o autor tinha agente, era porque não confiava neles. O Caio Graco, da Brasiliense, chegou a dizer para alguns autores que se os contratos viessem por intermédio de minha agência não contrataria o livro. Ainda hoje encontro alguma resistência, sobretudo em editoras que não admitem que um contrato de edição possa ser negociado e renegociado", observa Ana Maria Santeiro, que representa autores estrangeiros e brasileiros - entre eles Ruth Rocha, Ivan Ziggi, Vinícius de Moraes, Raul Bopp, Paulo Afonso Grisolli e Maria Lúcia Dahl - e algumas empresas estrangeiras.
Para Marisa Moura, as editoras do exterior entendem melhor o seu papel. "Representar o autor nacional é mais complicado. Existem muitos contratos feitos diretamente entre o escritor e a editora." Já Lúcia Riff afirma não ter problema na relação com as empresas nacionais. "Ao contrário, sinto por parte da grande maioria das editoras uma reação superpositiva."
As sócias Flávia Sala e Anna Christina Purchio também acham que a atividade é muito bem aceita pelas editoras nacionais. "Podemos afirmar que, praticamente, não há resistência ao nosso trabalho, pois acreditamos que o agente literário é de grande ajuda nas relações entre editores nacionais e estrangeiros."
O outro lado da moeda
Na opinião de alguns editores, o papel dos agentes é bem definido e facilita a tarefa. "Considero importante o trabalho do agente literário. Ele filtra a produção editorial, que é imensa e, conhecendo bem o perfil de cada editora, faz o encaminhamento de forma adequada", explica Nelson dos Reis, da Nova Alexandria, acrescentando não ver o agente como um atravessador. "O mercado é todo intermediado. Trata-se de uma fase do processo editorial, que tem o seu papel de forma positiva."
Para Beatriz Bracher, da Editora 34, quando desempenha bem as suas funções, o agente literário ajuda muito. "O autor não tem noção das características próprias de cada editora. Um bom agente tem essa visão, conhece a linha de cada empresa", explica. Além disso, enfatiza, os agentes também estão bastante acostumados a lidar com as formalidades de contratos de edição e deixam os autores mais à vontade. "O papel do agente literário é positivo, muito importante para a aproximação dos autores e dos editores."
Como toda e qualquer profissão no Brasil, os agentes literários também estão sujeitos aos ventos e às tempestades provocados pelas variações econômicas. "O mercado, no país, costuma ser variável. Por exemplo, existem momentos em que se vende mais infanto-juvenil e, em outros, negócios", afirma Marisa Moura.
"As dificuldades de ser agente no Brasil estão ligadas à nossa eterna instabilidade, alto custo de vida, impostos alucinantes etc.", salienta Lúcia Riff, ressalvando que esses problemas atingem todo pequeno empresário. "Não é fácil ser agente literário, por definição. As complicações são as mesmas em todo o mundo. É claro que, num mercado como o americano, em que não existe autor sem agente, a relação é diferente, mas não necessariamente fácil", arrisca Lúcia.
"A profissão exige muita dedicação e o mercado brasileiro ainda é relativamente pequeno, se comparado a outros países, nos quais trabalham agentes literários em grande número, como Estados Unidos e Inglaterra", explica Christina Purchio que, em sociedade com Flávia Sala, atende cerca de 50 clientes no exterior e lida com uma centena de editoras brasileiras. Entre os principais clientes, estão Farrar, Straus & Giroux, Barron's Educational Series, Jean Naggar Literary Agency (EUA); Little & Brown, Routledge (Inglaterra); e S. Fisher Verlag, Steidl Verlag (Alemanha).
Segundo Ana Maria Santeiro, o mercado brasileiro para os agentes literários ainda é "virgem" e tem espaço para vários profissionais. "Este é um serviço que tem que acontecer no Brasil. Não sei qual a capacidade do mercado, mas atualmente tudo é feito de forma positiva", fala Marisa, acrescentando, no entanto, que ainda há muito preconceito contra a profissão. "O autor brasileiro não tem idéia do que é o agente literário. Confunde-o com um empresário, um atravessador. Ainda há muito que caminhar", completa.
Mercado feminino?
No Brasil, o mercado de agentes literários está basicamente sob o comando feminino. As mulheres se saem melhor nesta área? Há controvérsias. Sobre a predominância das mulheres no setor, Marisa Moura acha que é apenas coincidência. "Nos Estados Unidos, a relação é bem mista. Trata-se de um mercado lento, com retorno demorado. O sexo masculino, mais objetivo, talvez não agüentasse", brinca.
Na visão de Lúcia Riff, o mundo editorial é atualmente dominado pelas mulheres - no Brasil e lá fora. "Existem muitos agentes, editores e publishers homens, mas a maioria do mercado está mesmo nas mãos das mulheres", salienta.
Para Flávia Sala, talvez haja uma predominância de mulheres trabalhando nesse mercado, que exige muita sensibilidade e tato. "Mas não podemos esquecer as grandes agências literárias, onde há muitos homens trabalhando e com os quais mantemos contato permanente", alerta.
Se o bom exercício da profissão não depende do sexo, existem algumas qualidades que são fundamentais. Marisa elege a paciência, a atualização, a rapidez para a movimentação do mercado e bons relacionamentos como os principais. "O mercado editorial brasileiro muda muito, o profissional deve estar sempre ligado e ter uma boa cultura geral."
Karin acha que o importante é ter vontade de vender, sendo fundamental conhecer bem o cliente e saber para quem oferecer o livro, satisfazendo as duas partes. "Eu me chamo de vendedora sofisticada: trabalho com direitos autorais. Assim como qualquer vendedor, tenho que conhecer meu produto, ver quem pode comprar e fazer o melhor tempo possível."
Entre os pontos positivos da profissão, Lúcia Riff diz ser estimulante o contato permanente com novos livros e idéias, com personalidades variadas, brasileiras ou estrangeiras. "Entrar na vida de autores queridos, saber que você fez diferença, para melhor, na vida do seu autor. Não há um dia de tédio. Não existe rotina. Trabalhar no mercado editorial é um privilégio", elogia.
Marisa Moura acha fascinante poder vender a coisa certa para a pessoa certa. "O trabalho é bastante diversificado e permite fazer contato com pessoas em vários países", ressalta Flávia Sala.
Já os aspectos negativos parecem ser os comuns à maioria das profissões. Marisa diz que o trabalho é cansativo. "Fora as chatices de qualquer dia-a-dia de trabalho, penso que o lado ruim é a pequenez do mercado editorial comparado às possibilidades de publicações", observa Ana Maria.
O excesso de trabalho, aliado à baixa remuneração, são citados por Lúcia Riff e Christina Purchio. "Ganha-se muito pouco, gasta-se uma enormidade e é necessário ter fôlego de leão para agüentar o volume de trabalho", ressalta Lúcia. "Podemos resumir os pontos negativos em muito trabalho e pouco dinheiro", acrescenta Christina.
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