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A palestra mais esperada pela maioria dos autores presentes ao encontro da Associação Gaúcha de Escritores (AGE) foi a da agente literária Marisa Moura (38), da agência literária Página da Cultura, de São Paulo (SP). Moura explanou como funciona o agenciamento literário - profissão que consiste em descobrir bons escritores e conseguir que seus livros sejam publicados pelas grandes editoras. Em troca, o agente recebe uma porcentagem do pagamento oferecido pela editora. Em entrevista ao Blau, Moura fala sobre sua tarefa.
Blau - Há quanto tempo surgiu a tarefa de agente literário no Brasil?
Marisa Moura - A primeira representação de editor estrangeiro, no Brasil, foi a Karin Schindler, que herdou uma agência literária de um dos Bloch's [editora].
Blau - Qual a diferença entre o editor e o agente literário?
Moura - O editor edita (risos). Faz a idéia, o produto livro, comercializa. O agente literário está vendendo a idéia de um livro e está administrando a parte jurídica dessa relação entre autor/editor ou editora estrangeira e editora nacional.
Blau - Qual seria a porcentagem que o agente literário obtém do dinheiro que seria reservado ao autor, se este não tivesse o intermédio do agente?
Moura - A faixa normal é de 10%, 1% ou até 35% - como as grandes estrelas americanas. Mas a média normal é de 10% a 20% - 20% é mais para editor estrangeiro - do preço de capa da parte do autor ou da parte de quem contrata, que pode ser editora estrangeira ou editora nacional.
Blau - Qual é a vantagem, para o autor, de buscar o agente literário em vez de ir direto ao editor?
Moura - A primeira coisa que o autor tem que se perguntar é quais as funções de escritor que ele precisa ou quer executar. O que ele mais quer fazer, enquanto escritor, é escrever? Para este tipo de escritor ou autor é muito interessante [o agente literário]. Porque [o agente faz] esta parte de venda, contrato, acompanhamento de prestação de conta das editoras, disponibilizar a obra do autor para um maior número de editores. O agente literário tem mais condições de fazer isso de maneira agressiva e profissional. Agora, se for um autor organizado, que consegue se promover, vender o livro e fazer a parte comercial de maneira tranqüila, ele pode fazer tudo, sem precisar de agente literário.
Blau - Existe grande procura por agente literário ou ainda não existe esta cultura, no Brasil?
Moura - É muita procura. A Página da Cultura se divulga pouco. Nos divulgamos em lugares específicos. Quem realmente procura a gente, acha na Câmara Brasileira do Livro, no site de literatura do Sesc (Serviço Social do Comércio). Há muita procura. Acho que os autores mais profissionais ou mais consagrados no Brasil, hoje, não têm esta cultura de ter esse serviço no Brasil. Eles têm isso mais no mercado internacional - Estados Unidos, Europa etc.
Blau - Como funciona o processo de seleção das obras que serão defendidas para publicação?
Moura - Não é uma seleção literária. É uma seleção que envolve milhões de coisas. Porque é uma relação que se torna uma sociedade, em cima de um determinado bem. E, assim como qualquer sociedade, é uma relação difícil, ainda mais no Brasil, em que as opções [de mercado] para os escritores são muito poucas. Claro, em primeiro lugar, o escritor passa primeiro o texto. Trabalhamos com textos que possam ser vendidos em no máximo dois anos (sic). Trabalhamos com contratos de representação de um a dois anos, no máximo. Em reedição, tentamos excluir um pouco porque o mercado não absorve. Enfim, tentamos trabalhar com coisas que se mobilizem rápido, para não criar muita expectativa no autor e não se tornar desgastante para todos.
Blau - Vocês têm leitores críticos?
Moura - Temos leitores críticos para infanto-juvenil. São leitores que trabalham para editoras do mercado, que ajudam a selecionar os textos.
Blau - E para adultos...
Moura - Para literatura adulta, tudo é negociável. Depende do autor, do currículo etc.
Blau - E para infantil?
Moura - O infantil, com certeza, tem leitura crítica. Temos um grupo de leitores selecionados no mercado editorial, que nos dá parecer somente com base nas mudanças do MEC, como os temas transversais etc.
Blau - E o que mais vende?
Moura - A não-ficção é mais fácil de vender. Na área de negócios é muito fácil. Agora, com a questão dos 500 anos do Brasil, encontra-se muita coisa nesta área. Romance é um pouco complicado, mas ainda tem muita publicação. Esotéricos, ainda têm muita coisa. Agora, com a
virada de 99 para 2000, acho que tinha muita expectativa em relação ao fim do mundo - pelo menos eu brinco com isso. Infanto-juvenil tem um movimento particular, mais diferenciado. Porque as editoras, de uma maneira geral, têm vendedores que vão vender os livros diretamente nas escolas. Então, elas têm acesso diretamente ao professor.
Blau- Sabe qual é a média de originais que tem que ler por ano?
Moura - A gente dizia muito não, ano passado, agora estamos com um grupo de leitores. Ano passado eu disse mais ou menos uns duzentos nãos, para leituras de textos, e li uns dez ou vinte. Hoje estou com 37 leituras em andamento. Acho que no começo do ano já teremos devolvido uns 20 ou 30 originais. Eu imploro que escreva isso: não mandem originais. A gente não tem condições de receber originais.
Blau - Então seria melhor mandar uma cópia?
Moura
- É. Mandem. Faça contato por e-mail, por carta, com o que você tem à mão.
Blau - Melhor que o autor já tenha registrado o livro?
Moura - Sim. Pedimos que registre na Biblioteca Nacional. O autor pode entrar em contato com a biblioteca, que ela manda a ficha de registro pelo fax ou correio. No começo e no meio do ano aparecem muitas obras, assim como depois de eventos, como bienais e feiras de livros.
Blau - Em relação à formação do agente literário, qual seria?
Moura - Eu acho que deve ter formação em Letras - acho que tem pouca faculdade de editoração, no Brasil -, ou talvez jornalista. Agora, depois desta formação básica e de possuir esta visão básica que dê uma visão geral de cultura, que não deixe misturar modernismo com renascimento etc., acho que também deve ser uma pessoa que tenha muito pique para fazer contato, conversar o tempo inteiro, vender idéias - é uma formação meio mista. Você passa pela área de marketing, de cultura... E tem que ter o desejo de oferecer a obra de maneira especial ou achar a pessoa correta para lê-la.
Blau - Nesse momento há centenas de pessoas preparando seus originais. Qual o recado que dá para deixar para elas?
Moura
- Pelo amor de Deus, fechem o texto (risos). Tenta saber com o amigo, o inimigo, para saber se o texto está fechado, realmente. Se esta era mesmo a idéia fugindo, no meio...
Blau - Por exemplo, um personagem fugindo de um página e surgindo na outra, sem nada a ver...
Moura
- ... ou esquecido no terceiro capítulo e voltando no décimo quinto, uma ação que começa e nunca termina, uma roupa que era cor-de-rosa e depois mudou de cor - há um erro desses num livro do Machado de Assis. Enfim, hoje a concorrência é muito grande. Quanto mais o autor fechar o texto, mais tem chance de concorrer. Quanto mais fechar o texto, deixá-lo bem estruturado - principalmente o romance. Não-ficção é outro universo. Há muitas variáveis, nesse tipo de texto.
Blau- Depois de o texto estar bem fechadinho, pode procurar você?
Moura - Pode tentar (risos).
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