Revista Época
17 de maio de 2004

MERCADO EDITORIAL

Os empresários da literatura

Agentes literários como Lucia Riff fazem ponte entre escritor e editora, contribuindo para que os livros cheguem aos leitores

 FEDERICO MENGOZZI

 

Foto de Otávio Dias de Oliveira
ÉPOCA
 

CLUBE PRIVADO

Marisa Moura integra
um grupo pequeno,
"meia dúzia de três
ou quatro"

 

Agentes literários, exclamaria Vinícius de Moraes, melhor não tê-los! Curiosamente, a obra do Poetinha é representada hoje por Lucia Riff, a maior agente literária brasileira, ex-funcionária da empresa que a mítica Carmen Balcells teve por aqui. Carmen foi a agente literária espanhola que, na prática, inventou a profissão nos países de cultura ibérica. Inspirada nela, Lucia abriu em 1990 a BMSR, que representa 45 autores brasileiros, grifes como Carlos Drummond de Andrade e Érico Veríssimo, e também jovens, como Letícia Wierzchowski, de A Casa das Sete Mulheres. Não exagera quem diz que ela possui quase metade da literatura atual do Brasil nas mãos - é tanta gente, e de tanto peso, que não aceita novos representados. Ela não recusaria um nome como o de Paulo Coelho. Mas o famoso escritor já tem uma agente exclusiva, Monica Antunes, que colaborou para sua projeção internacional. Como na mesa de um agente literário costuma cair mais joio do que trigo, Lucia prefere se concentrar em "seus" autores.

"Um agente sozinho não faz nada", diz Lucia. "Agora, se ele trabalhar com autores de qualidade, se existir uma química boa entre as partes e se houver uma pitada de sorte no processo, o resultado da parceria pode ser muito bom." Recentemente, ela deu um curso sobre a função em São Paulo. E usou nas aulas o exemplo mais recente de um sucesso: o do romance histórico A Casa das Sete Mulheres, apresentado pela agência a Maria Adelaide Amaral e, então, transformado em minissérie de TV, com enorme êxito. "Se o livro fosse ruim, só meu contato não teria valido de nada. Nesse meio, conta a soma de talentos. "Não tenho a pretensão de ter feito ninguém sozinha", diz. "Alguns autores já me procuraram no auge da fama; outros estavam começando." Nos Estados Unidos, não há quase autores sem um agente. Não é o caso do Brasil. "Somos três ou quatro gatos pingados", brinca Marisa Moura, da Página da Cultura, agência que atua há dez anos na praça e conta com 34 autores representados, a maioria novos talentos.


Quem paga a conta, de 10% a 20%, é o autor representado

O que faz um agente literário? De acordo com a definição que está no site da BMSR, um agente literário representa a obra de um autor e zela por ela. É um elo entre autores e editores com experiência de mercado. Ele procura as mais indicadas para publicar seus autores. Para isso, tem de conhecer a linha e o perfil das editoras. O agente negocia cláusulas, discute questões contratuais, cobra respostas, resolve impasses, fecha negócios, coordena projetos. Quem paga a conta é o autor, em cima da comissão a que tem direito - 10% dos valores brutos recebidos no Brasil e 20% para vendas no exterior. Em poucas palavras, ele é uma espécie de empresário de um escritor. Os escritores despertaram para esse tipo de assunto depois da promulgação da Lei de Direitos Autorais, em 1998. Daí alguns terem recorrido a advogados e agentes. A vantagem destes últimos é que podem servir como editores. "O agente é um selecionador gratuito de textos", define Marisa.

Foi-se o tempo em que os editores detestavam a figura do agente. De repente, havia um intermediário entre eles e os autores, a quem tratavam sem profissionalismo, de maneira paternalista, adiantando-lhes uns caraminguás a título de direitos autorais. Carmen Balcells foi uma figura decisiva para mudar a relação autor-editor. Sua agência, comandada por Gloria Gutiérrez desde que Carmen se aposentou, há quatro anos, representa mundialmente escritores brasileiros como Jorge Amado, Antônio Callado, Autran Dourado e Clarice Lispector. Graças a ela e sua influência no mundo editorial, escritores como o peruano Mario Vargas Llosa puderam viver de seu trabalho, ou pelo menos trabalhar com a sensação de que seus direitos eram reconhecidos. Quando Ana Maria Santeiro, da AMS Agenciamento, começou a atuar ao lado de Carmen, há 27 anos, a resistência era maior. "Isso acontecia um pouco pela figura de Carmen, que insistia em negociar e renegociar contratos, e assustava um pouco", lembra-se. Hoje Ana Maria possui uma carteira de 30 autores.

"As reações dos editores ao novo fenômeno são estritamente pessoais", ressalta Alexandre Carlos Teixeira, da Solombra Books. Com 38 autores representados, ele começou na profissão administrando a obra da avó, a poeta Cecília Meireles. "Vão desde o editor que adora tratar com o agente, em razão da postura e do relacionamento profissionais, até o editor que detesta tratar com o agente, por causa da postura e do relacionamento profissionais." O editor Caio Graco Prado, da então influente Brasiliense, já falecido, proclamou certa vez que não contrataria livros que chegassem por intermédio da agência de Carmen Balcells. "O surgimento de mais agentes mostra que há espaço para esse interlocutor", diz Ana Maria. Atualmente, o agente é tido como facilitador e pode ser um aval, confirma o editor Paulo Rocco, da Rocco. "É melhor conversar com alguém que conhece o mercado. Um texto que chega a minha mesa por meio de um agente significa que tem qualidade."

O agente pinça uma obra da imensa produção literária. Os especialistas calculam que mais de 40 mil títulos procurem um lugar ao sol anualmente. Conhecendo a linha editorial das empresas, ele faz a ponte entre autor e editor. Em princípio, os dois ganham, bem como o agente, embora os profissionais da área se queixem do trabalho árduo e do ganho escasso. Por esse motivo, agenciam vários clientes para conseguir um mínimo de rendimento. Apesar da presença do agente, analisa Lucia Riff, a "grande maioria das negociações ainda é feita entre o editor e o autor - muitos julgam ter desenvoltura com negociações". O fato é que são tão poucas as agências em atividade que mesmo autores que querem ser agenciados têm dificuldade em encontrar uma com a qual se afinem e esteja aberta a novos clientes. Entre outras tarefas, diz o agente literário Sérgio Porto, do Núcleo de Agenciamento Literário & Consultoria Editorial, está a de possibilitar que o autor "possa se dedicar às coisas de que gosta, seja no trabalho, seja escrevendo".

O que pensa a parte interessada? O best-seller Luis Fernando Verissimo não quer outra vida: "O agente é importante porque tem a informação e a capacidade para tratar com editores e solicitações que o autor não tem, ou não quer ter. Hoje, Lucia Riff é uma amiga". Elena Quintana, sobrinha e herdeira do poeta Mário Quintana, chegou a Lucia por indicação da xará, Lucia, mulher de Luis Fernando. Ela sentia o peso de cuidar, sozinha, da obra do tio. A partir da colaboração com a agente, sente-se segura. "Se a BMSR existisse antes, muitas coisas teriam sido diferentes na vida de Mário." O jornalista e escritor Pedro Cavalcanti já trabalhou com Ana Maria Santeiro e hoje publica a partir dos próprios contatos. Cavalcanti tratava da edição de Em Nome do Pai por uma editora gaúcha, mas Ana Maria achou que era melhor uma editora conhecida, a Salamandra. Quinze dias depois de lançado o livro, a Salamandra fechou. Gente de prestígio, como o também jornalista e autor infanto-juvenil Raul Drewnick, mais de 200 mil exemplares vendidos de Um Inimigo em Cada Esquina, e a poeta, romancista e ensaísta Maria José de Queiroz, prêmio Jabuti por Os Males da Ausência, enxergam o agente literário como uma abstração. "Sou tentado a dizer, com o risco de estar enganado, que o agente literário é, no Brasil, quase uma ficção", diz Drewnick. "Uma pobre "'marquesa'" como eu não sobe a tais alturas, sobretudo quando escreve para a imensa minoria", ironiza Maria José.


Os agentes são raros e é difícil achar quem aceite mais clientes

Marisa Moura imagina que a saída para os autores é deixá-los livres para fazer o que sabem. Ela pensa que assim possa acontecer com os brasileiros algo parecido ao boom da literatura latino-americana nos anos 60 e 70. O fenômeno cultural colaborou para que o colombiano Gabriel García Márquez ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982. Uma das arquitetas do triunfo foi justamente uma agente: Carmen Balcells.


NO MUNDO DAS LETRINHAS
As principais agências literárias brasileiras e os autores que representam

AMS AGENCIAMENTO
Edy Lima
Fausto Wolff
Heloísa Maranhão
Márcia Frazão
Maria Lúcia Dahl
Paulo Affonso Grisolli
Ruth Rocha
Sílvio Fiorani

BMSR
Ana Maria Machado
Ariano Suassuna
Carlos Drummond
de Andrade
Érico Veríssimo
Fernando Sabino
Lya Luft
Lygia F. Telles

PÁGINA DA CULTURA
Adalgisa Nery
Antonieta Dias de Moraes
Claudia Matarazzo
João Gilberto Noll
Menalton Braff
Ulisses Tavares

SOLOMBRA BOOKS
Antônio Olinto
Aurélio B. de Holanda
Cecília Meireles
Esdras do Nascimento
Ledo Ivo
Manuel Bandeira
Orígenes Lessa
Pedro Bloch