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Agentes literários, exclamaria Vinícius de Moraes, melhor não
tê-los! Curiosamente, a obra do Poetinha é representada hoje por
Lucia Riff, a maior agente literária brasileira, ex-funcionária da
empresa que a mítica Carmen Balcells teve por aqui. Carmen foi a
agente literária espanhola que, na prática, inventou a profissão nos
países de cultura ibérica. Inspirada nela, Lucia abriu em 1990 a
BMSR, que representa 45 autores brasileiros, grifes como Carlos
Drummond de Andrade e Érico Veríssimo, e também jovens, como Letícia
Wierzchowski, de A Casa das Sete Mulheres. Não exagera quem
diz que ela possui quase metade da literatura atual do Brasil nas
mãos - é tanta gente, e de tanto peso, que não aceita novos
representados. Ela não recusaria um nome como o de Paulo Coelho. Mas
o famoso escritor já tem uma agente exclusiva, Monica Antunes, que
colaborou para sua projeção internacional. Como na mesa de um agente
literário costuma cair mais joio do que trigo, Lucia prefere se
concentrar em "seus" autores.
"Um agente sozinho não faz nada", diz Lucia. "Agora, se ele
trabalhar com autores de qualidade, se existir uma química boa entre
as partes e se houver uma pitada de sorte no processo, o resultado
da parceria pode ser muito bom." Recentemente, ela deu um curso
sobre a função em São Paulo. E usou nas aulas o exemplo mais recente
de um sucesso: o do romance histórico A Casa das Sete Mulheres,
apresentado pela agência a Maria Adelaide Amaral e, então,
transformado em minissérie de TV, com enorme êxito. "Se o livro
fosse ruim, só meu contato não teria valido de nada. Nesse meio,
conta a soma de talentos. "Não tenho a pretensão de ter feito
ninguém sozinha", diz. "Alguns autores já me procuraram no auge da
fama; outros estavam começando." Nos Estados Unidos, não há quase
autores sem um agente. Não é o caso do Brasil. "Somos três ou quatro
gatos pingados", brinca Marisa Moura, da Página da Cultura, agência
que atua há dez anos na praça e conta com 34 autores representados,
a maioria novos talentos.
Quem paga a conta,
de 10% a 20%, é o autor representado
O que faz um agente literário? De acordo com a definição que está no
site da BMSR, um agente literário representa a obra de um autor e
zela por ela. É um elo entre autores e editores com experiência de
mercado. Ele procura as mais indicadas para publicar seus autores.
Para isso, tem de conhecer a linha e o perfil das editoras. O agente
negocia cláusulas, discute questões contratuais, cobra respostas,
resolve impasses, fecha negócios, coordena projetos. Quem paga a
conta é o autor, em cima da comissão a que tem direito - 10% dos
valores brutos recebidos no Brasil e 20% para vendas no exterior. Em
poucas palavras, ele é uma espécie de empresário de um escritor. Os
escritores despertaram para esse tipo de assunto depois da
promulgação da Lei de Direitos Autorais, em 1998. Daí alguns terem
recorrido a advogados e agentes. A vantagem destes últimos é que
podem servir como editores. "O agente é um selecionador gratuito de
textos", define Marisa.
Foi-se o tempo em que os editores detestavam a figura do agente. De
repente, havia um intermediário entre eles e os autores, a quem
tratavam sem profissionalismo, de maneira paternalista,
adiantando-lhes uns caraminguás a título de direitos autorais.
Carmen Balcells foi uma figura decisiva para mudar a relação
autor-editor. Sua agência, comandada por Gloria Gutiérrez desde que
Carmen se aposentou, há quatro anos, representa mundialmente
escritores brasileiros como Jorge Amado, Antônio Callado, Autran
Dourado e Clarice Lispector. Graças a ela e sua influência no mundo
editorial, escritores como o peruano Mario Vargas Llosa puderam
viver de seu trabalho, ou pelo menos trabalhar com a sensação de que
seus direitos eram reconhecidos. Quando Ana Maria Santeiro, da AMS
Agenciamento, começou a atuar ao lado de Carmen, há 27 anos, a
resistência era maior. "Isso acontecia um pouco pela figura de
Carmen, que insistia em negociar e renegociar contratos, e assustava
um pouco", lembra-se. Hoje Ana Maria possui uma carteira de 30
autores.
"As reações dos editores ao novo
fenômeno são estritamente pessoais", ressalta Alexandre Carlos
Teixeira, da Solombra Books. Com 38 autores representados, ele
começou na profissão administrando a obra da avó, a poeta Cecília
Meireles. "Vão desde o editor que adora tratar com o agente, em
razão da postura e do relacionamento profissionais, até o editor que
detesta tratar com o agente, por causa da postura e do
relacionamento profissionais." O editor Caio Graco Prado, da então
influente Brasiliense, já falecido, proclamou certa vez que não
contrataria livros que chegassem por intermédio da agência de Carmen
Balcells. "O surgimento de mais agentes mostra que há espaço para
esse interlocutor", diz Ana Maria. Atualmente, o agente é tido como
facilitador e pode ser um aval, confirma o editor Paulo Rocco, da
Rocco. "É melhor conversar com alguém que conhece o mercado. Um
texto que chega a minha mesa por meio de um agente significa que tem
qualidade."
O agente pinça uma obra da imensa
produção literária. Os especialistas calculam que mais de 40 mil
títulos procurem um lugar ao sol anualmente. Conhecendo a linha
editorial das empresas, ele faz a ponte entre autor e editor. Em
princípio, os dois ganham, bem como o agente, embora os
profissionais da área se queixem do trabalho árduo e do ganho
escasso. Por esse motivo, agenciam vários clientes para conseguir um
mínimo de rendimento. Apesar da presença do agente, analisa Lucia
Riff, a "grande maioria das negociações ainda é feita entre o editor
e o autor - muitos julgam ter desenvoltura com negociações". O fato
é que são tão poucas as agências em atividade que mesmo autores que
querem ser agenciados têm dificuldade em encontrar uma com a qual se
afinem e esteja aberta a novos clientes. Entre outras tarefas, diz o
agente literário Sérgio Porto, do Núcleo de Agenciamento Literário &
Consultoria Editorial, está a de possibilitar que o autor "possa se
dedicar às coisas de que gosta, seja no trabalho, seja escrevendo".
O que pensa a parte interessada? O
best-seller Luis Fernando Verissimo não quer outra vida: "O agente é
importante porque tem a informação e a capacidade para tratar com
editores e solicitações que o autor não tem, ou não quer ter. Hoje,
Lucia Riff é uma amiga". Elena Quintana, sobrinha e herdeira do
poeta Mário Quintana, chegou a Lucia por indicação da xará, Lucia,
mulher de Luis Fernando. Ela sentia o peso de cuidar, sozinha, da
obra do tio. A partir da colaboração com a agente, sente-se segura.
"Se a BMSR existisse antes, muitas coisas teriam sido diferentes na
vida de Mário." O jornalista e escritor Pedro Cavalcanti já
trabalhou com Ana Maria Santeiro e hoje publica a partir dos
próprios contatos. Cavalcanti tratava da edição de Em Nome do Pai
por uma editora gaúcha, mas Ana Maria achou que era melhor uma
editora conhecida, a Salamandra. Quinze dias depois de lançado o
livro, a Salamandra fechou. Gente de prestígio, como o também
jornalista e autor infanto-juvenil Raul Drewnick, mais de 200 mil
exemplares vendidos de Um Inimigo em Cada Esquina, e a poeta,
romancista e ensaísta Maria José de Queiroz, prêmio Jabuti por Os
Males da Ausência, enxergam o agente literário como uma
abstração. "Sou tentado a dizer, com o risco de estar enganado, que
o agente literário é, no Brasil, quase uma ficção", diz Drewnick.
"Uma pobre "'marquesa'" como eu não sobe a tais alturas, sobretudo
quando escreve para a imensa minoria", ironiza Maria José.
Os agentes
são raros e é difícil achar quem aceite mais clientes
Marisa Moura imagina que a saída para
os autores é deixá-los livres para fazer o que sabem. Ela pensa que
assim possa acontecer com os brasileiros algo parecido ao boom da
literatura latino-americana nos anos 60 e 70. O fenômeno cultural
colaborou para que o colombiano Gabriel García Márquez ganhasse o
Prêmio Nobel de Literatura, em 1982. Uma das arquitetas do triunfo
foi justamente uma agente: Carmen Balcells.
NO MUNDO DAS LETRINHAS
As principais agências literárias brasileiras e os autores que
representam
AMS
AGENCIAMENTO
Edy Lima
Fausto Wolff
Heloísa Maranhão
Márcia Frazão
Maria Lúcia Dahl
Paulo Affonso Grisolli
Ruth Rocha
Sílvio Fiorani
BMSR
Ana Maria Machado
Ariano Suassuna
Carlos Drummond
de Andrade
Érico Veríssimo
Fernando Sabino
Lya Luft
Lygia F. Telles
PÁGINA DA
CULTURA
Adalgisa Nery
Antonieta Dias de Moraes
Claudia Matarazzo
João Gilberto Noll
Menalton Braff
Ulisses Tavares
SOLOMBRA
BOOKS
Antônio Olinto
Aurélio B. de Holanda
Cecília Meireles
Esdras do Nascimento
Ledo Ivo
Manuel Bandeira
Orígenes Lessa
Pedro Bloch |