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Com uma sensação de alívio, o escritor Charles Kiefer concretizou há
algumas semanas o antigo projeto de passar a administração de toda
sua obra para um agente literário. Rendeu-se à implacável lógica
capitalista: "se as regras do jogo são essas, então vamos dançar
conforme a música". O consagrado autor, com mais de 300 mil livros
vendidos, estava exausto de comercializar, brigar por direitos
autorais e outros quesitos desgastantes da indústria cultural.
Numa imagem romântica, a escritura de um livro é um processo íntimo,
de um criador com idéias originais lutando contra o vazio de um
papel ou tela de computador em branco. Terminada a criação, começa a
parte difícil. Encontrar um editor, negociar custos e divulgar são
tarefas infernais para a maioria dos escritores. Nesta altura,
aquilo que era criação artística passa a ser produto na selva da
sociedade de consumo. Fazer o livro chegar ao leitor é um desafio e
requer competência e especialização.
Neste ponto do processo entra o agente literário: novidade no
mercado editorial brasileiro, é um profissional consolidado na
Europa e Estados Unidos.
Leitores de Gabriel Garcia Márquez ou Mário Vargas Llosa não
imaginam o quanto o sucesso desses notáveis nomes da literatura
latino-americana deve a uma agente literária considerada mítica. A
espanhola Carmen Balcells foi quem "criou" esta profissão no mundo
ibérico. Sua agência, da qual está aposentada, continua sendo peça
fundamental na difusão mundial da literatura latina. Entre os
escritores brasileiros que representa estão Jorge Amado, Antônio
Callado e Clarice Lispector.
"Nós estamos vivendo, no que tange ao mercado de livros, algo novo
que são 'as' agentes literárias", acentua o escritor Luís Antônio de
Assis Brasil. De fato, as mulheres predominam neste setor nascente.
Ana Maria Santeiro, da AMS Agenciamento começou ao lado de Carmen.
Em 1990, Lucia Riff abriu a BMSR, e Alexandre Carlos Teixeira, da
Solombra Books, começou como herdeiro da obra da avó Cecília
Meirelles. Há dez anos, a Página da Cultura é mantida por Marisa
Moura, que brinca: "somos meia dúzia de três ou quatro". Todos são
do centro do país.
Dois fatores principais são responsáveis pela emergência do agente
literário no Brasil: a estabilidade econômica dos últimos anos e a
Lei 9.610, de regulamentação do direito autoral, editada em 1998,
dando mais poder ao autor sobre a circulação e comercialização de
sua obra. O livro tornou-se mercadoria atrativa, ganhou um caráter
comercial e vendável mais acentuado.
Quanto vale o favor
O agente literário objetiva relações atravessadas por um forte
componente emocional. Sendo representado, o escritor se livra da
desgastante discussão sobre o valor comercial de uma obra com a qual
mantém intenso vínculo afetivo. Assim como há editores que
consideram um favor publicar um livro, existem autores que
desconfiam da boa fé dos editores.
Kiefer festeja os benefícios da profissionalização: "o agente pode
dar mais dignidade a esta relação que, no Brasil, tem sido de
compadrismo ou favor". Reconhece este quadro desde que morou nos
Estados Unidos, em 1986, e percebeu que todos os escritores tinham
um agente. Foi a amizade antiga com Roque Jacoby, da Mercado Aberto,
que retardou a decisão tomada somente depois da venda da editora.
"Eu até poderei continuar com a mesma editora, mas isso vai depender
da negociação da agente".
Em mercados avançados, a idéia de um escritor sem agente é
inconcebível. Luís Antônio de Assis Brasil surpreendeu editores
franceses ao ser procurado para publicação de O Homem Amoroso na
França, em 2003. Ele não tem agente literário. Não se trata de
nenhuma oposição. Simplesmente, um dos maiores autores da nossa
literatura considera que não chegou o momento. "Eu tenho sabido
negociar, aprendi." Seus 15 livros, a maioria romance, saíram pela
Movimento, Mercado Aberto e agora são comercializados pela L&PM.
Um detalhe não deve ser desconsiderado. Assis Brasil conjuga com a
formação em Letras uma em Direito. Ou seja, domina aquilo que
assusta a maioria dos escritores. "Talvez faça diferença", afirma
sorrindo. Mas recomenda o agente, especialmente para os alunos das
oficinas literárias que desenvolve na PUC desde 1985. Lição seguida
por Letícia Wierzchowski, cujo sucesso do romance histórico A Casa
das Sete Mulheres não deve ser dissociado do fato de o livro ter
sido apresentado a Maria Adelaide Amaral pela agente literária Lucia
Riff. Tornou-se minissérie de sucesso da Rede Globo.
O que faz um agente literário
Conhecer o mercado editorial é a principal qualificação necessária
para um candidato à profissão de agente. O momento atual é de
abertura a novos autores, que, no entanto, existem em número maior
do que as editoras conseguem publicar. Uma obra pode ficar parada
até dois anos em uma editora antes de receber um parecer para
publicação. A esta altura, o autor, se um dia pensou em viver da
literatura, já está redefinindo objetivos.
O agente racionaliza o processo. Com uma obra na mão, pesquisa e
busca as editoras cujo perfil é mais adequado àquele conteúdo. "É
uma vantagem, pois o agente está fazendo a seleção", acentua Marisa
Moura, que investe em novos talentos. Dos 36 autores da Página da
Cultura, metade estão em início de carreira. Formada em letras, com
mestrado em marketing literário, Marisa faz questão de dispensar o
gosto pessoal na seleção. Para avaliar os textos, contrata
pareceristas atuantes no mercado, afinados com as tendências, em
busca das melhores oportunidades comerciais.
A outra metade do catálogo é de autores consagrados, cuja obra
administra. É onde Charles Kiefer, com 27 livros publicados e três
inéditos, se enquadra. Os rendimentos de um agente variam de 10 a
20% sobre os ganhos editoriais do autor.
Para Marisa, o trabalho do agente deve beneficiar tanto o escritor
quanto o editor, "um bom contrato atende as duas partes". Do ponto
de vista econômico, não cabem ingenuidades, todos estão no jogo para
ganhar mais, cada um com sua tarefa. "O escritor escreve, o agente
vende e o editor edita", ensina a agente.
Os gaúchos nas prateleiras
Há mais de 50 semanas o livro Perdas & Ganhos, de Lya Luft, figura
na lista dos mais vendidos da revista Veja. A ótima fase da
escritora nascida em Santa Cruz é sinalizada pela transferência da
editora Siciliano para Record com a edição de Mar de Dentro, em
2000. Desde então, obras novas alternam-se com reedições. Numa
visita ao site da BMSR, o nome de Lya é encontrado entre os 45
autores da agência, junto com Érico Veríssimo, Kledir Ramil, Luís
Fernando Veríssimo, Mário Quintana e outros do sul.
Para o editor Geraldo Huff, que já presidiu a Câmara Rio-Grandense
do Livro, a análise do quadro atual de valorização da literatura
gaúcha não deixa dúvidas sobre o papel dos agentes literários. Com a
entrada de Kiefer, Marisa Moura passa a agenciar sete autores
nascidos no Rio Grande do Sul, incluindo João Gilberto Noll e Luis
Pedro Pedroso Ricciardi, jornalista com vasta publicação em
cooperativismo.
A lógica da segmentação no mercado globalizado ensina que há público
para tudo, basta que seja identificado. Ganhador de três prêmios
Jabuti, Kiefer vende mais livros na França e na Suíça do que em São
Paulo e no Rio de Janeiro.
Entre o mercado potencial e a dura
realidade
Brasil tem um mercado potencial apenas em tese, e isso nem o agente
literário pode mudar. Na França são vendidos 22 livros per capita
por ano. Os argentinos compram uma média de 8, enquanto no Brasil,
estamos reduzidos a um único volume por pessoa. Esta média inclui os
didáticos, paradidáticos, religiosos e de auto-ajuda. Sobra para a
literatura uma cifra que é quase ficção. O mercado é restrito e o
motivo é econômico. As pessoas têm pouco dinheiro e priorizam a
compra de comida.
O fator cultural contribui de forma secundária no consumo reduzido
de livros. Um CD musical e um livro têm o mesmo custo, mas, na hora
de escolher, em virtude das dificuldades de compreensão decorrentes
de uma escolaridade precária, as pessoas preferem o caminho mais
fácil da música. Para Assis Brasil, a expansão do mercado depende da
melhoria do ensino.
De certa forma, as oficinas literárias que desenvolve contribuem
para formação de leitores. Nem todos que escrevem tornam-se
escritores. Aliás, ser escritor é uma decisão que implica uma
atividade contínua. Uma pesquisa sobre os participantes das oficinas
indica que apenas 21,35% seguem a profissão, fazendo o que Marisa
recomenda aos jovens: "escrever muito e manter-se bem-informado". Os
demais tornam-se bons leitores e difusores da literatura.
Incipiente em relação aos mercados desenvolvidos, o Brasil não
explora formas mais baratas de publicação, como brochura e clubes do
livro. A diversificação dos pontos de venda é outra possibilidade
mercadológica que recém está se constituindo, mesmo caso dos
supermercados e lojas esotéricas.
Poucos para muitos
Existem poucos agentes para muitas demandas. Sendo uma atividade
nova no Brasil, é uma profissão em construção. A Página da Cultura é
procurada especialmente por editoras estrangeiras interessadas em
publicar aqui e por escritores brasileiros desejosos de se expandir
para o mercado internacional.
Quanto aos direitos autorais, existem escritórios de advocacia
especializando-se neste setor, também em expansão. Oferecem serviços
de contratos e administração, mas a expectativa de um autor em
relação a um agente ultrapassa o âmbito jurídico.
Conseguir tempo para conversar com todos os autores é o maior
desafio no cotidiano de Marisa Moura. A relação, necessariamente
baseada na confiança, também é carregada de afeto. O lado prazeroso
é estar em permanente contato com a ebulição da criação.
Sensibilidade também é ingrediente fundamental de um bom agente
literário. |