Entrevista com Marisa Moura

 por Vivaldo Lima Trindade – Verbo 21 Cultura e Literatura – setembro de 2005

 

MARISA MOURA é a simpatia em pessoa. Pós-graduada em Literatura Brasileira como Ferramenta para Programas de Comunicação Institucional e Marketing Cultural pela USP, é ela quem dirige A PÁGINA DA CULTURA, uma agência literária que trabalha há mais de 10 anos aproximando autores e editoras - trabalho feito sempre com muito critério, analisando cada caso, buscando interesses comuns, respeitando as diferenças profissionais e, também, zelando pela qualidade das relações.
No site da agência há diversas e importantes informações para escritores neófitos e estabelecidos entenderem melhor o complexo mercado editorial brasileiro. E você não precisa fazer parte do cast da Página para solicitar um parecer especializado sobre seu livro (que poderá ajudar MUITO). Confira o que essa menina tem a dizer!

 

Valdo Trindade - Há quanto tempo você atua no Mercado Literário? Como surgiu a Página da Cultura?

Marisa Moura - Já tenho onze anos de Página da Cultura. Vale ressaltar que, nos primeiros anos, atuávamos mais com cultura - especificamente a área de marketing cultural - do que como agência literária.
Esse desejo singelo que tive, de abrir uma empresa preocupada com a literatura brasileira e com projetos especialmente voltados à cultura, foi o resultado da pesquisa que realizei para minha dissertação de Mestrado e que intitulei de "A parceria empresa-literatura: a experiência brasileira".
Quanto ao nome da empresa, sua criação atendeu à nossa necessidade de sermos, ao mesmo tempo, "página de livro" e "página de cultura".

VLT - Como se dá seu processo de seleção dos autores? Prefere trabalhar com gente nova ou conhecida?

MM - É preciso esclarecer que um agente literário não trabalha nem só a obra nem só o autor. Aliás, trata-se de uma parceria que eu gosto de chamar de "união literária". A proposta da Página da Cultura sempre foi a de lançar talentos literários. Todavia, o produto de cultura, incluindo-se o livro, tem, historicamente, suas peculiaridades, principalmente no que se refere aos diferentes momentos pelos quais ele necessariamente deve passar, incluindo a fase de reconhecimento e consumo, pelo público e pelos críticos. Então, apesar de sermos influenciados, em primeiro lugar, pela qualidade da obra literária, e de esse ser nosso primeiro interesse em relação a qualquer autor, sempre avaliamos detalhadamente as possibilidades reais de desenvolvermos uma relação produtiva e de confiança entre o agente e o autor. Ou seja, uma parceria que acrescente elementos positivos à relação profissional dos dois.
Atualmente, estamos reconsiderando a representação de escritores inéditos que não tenham o hábito "quase compulsivo" de escrever sempre. Não nos interessam os escritores sazonais, pois acreditamos que a escrita só pode ser aprimorada com muita leitura e muito exercício.
É preciso dizer, no entanto, que nenhuma agência literária negaria a representação a um autor conhecido ou com um público leitor fiel. Da mesma forma que é preciso deixar claro que, no dia-a-dia de trabalho da Página da Cultura, tanto o autor iniciante como o reconhecido geram a mesma quantidade de ações e preocupações, e sempre com a mesma qualidade. O tempo que o agente investe para convencer os editores a apostarem no novo, ele também usa para administrar as relações editoriais de obras publicadas e de outros trabalhos paralelos aos livros e aos diferentes autores.
O raciocínio acima também serve para referendar um dos pilares da minha atuação profissional: o de não concordar com o fato de que uma empresa do setor cultural eleja suas preferências movida exclusivamente por opções financeiras. Minha primeira motivação será sempre a cultura.

VLT - É possível avaliar o atual momento da produção literária nacional sem submetê-la exclusivamente ao mercado? Quantos são os originais que chegam até a Página?

MM - A Página da Cultura entende que os instrumentos de avaliação da obra literária chegam sempre após a sua produção. Nenhum crítico se antecipa ao seu tempo. Quanto às decisões de publicação por parte das editoras, estas seguem inúmeras variáveis e não cabe aqui relacioná-las.
Contudo, observando-se a imprensa, os eventos literários e as feiras de livros, percebo que a literatura nacional tem mais destaque, mas carece ainda de muito mais. De muito mais do que já conquistou.
A Página da Cultura tem investido na idéia de esclarecer os escritores sobre todos os vetores que influenciam na publicação de uma obra - o que também é, em minha opinião, papel de um agente literário. Já nos primeiros contatos pedimos uma visita ao nosso site, onde procuramos disponibilizar o máximo de explicações. E outro ponto no qual insistimos bastante é o de o autor nunca nos enviar seu trabalho sem agendar a data em que o receberemos. Claro que toda essa programação só tem a preocupação essencial de atender à grande quantidade de solicitações que temos, quase sempre cartas e e-mails nos quais o autor fala de si mesmo e de sua obra, e não necessariamente originais. Em média, são cerca de 100 contatos todos os dias.

VLT - Qual a principal qualidade que você enxerga num bom escritor para se firmar na carreira?

MM - Não falarei do que vejo todos os dias, mas do que considero como os pontos ideais a serem seguidos por um autor:
1. Que tenha lido os clássicos da literatura brasileira;
2. E também os clássicos da literatura mundial;
3. Se for contista, que tenha lido o suficiente para saber se produz algo diferenciado ou não. E o mesmo vale para os autores de outros gêneros;
4. Ele também deve acompanhar os lançamentos no gênero literário que escolheu;
5. Precisa dominar o instrumental de seu ofício, ou seja: ortografia, sintaxe, construção de enredos e personagens, passando por todos os componentes de um estilo próprio, como, por exemplo, o uso das figuras de linguagem;
6. Que ele desenvolva, como Flaubert, o hábito de ler em voz alta o seu próprio texto, até que a sonoridade seja agradável, tenha eufonia;
7. Que ele seja pai - e não padrasto - da obra que criou. Ou seja, tenha prazer de falar sobre ela com a imprensa, professores, alunos e leitores em geral;
8. Ele deve também se emocionar com o que escreve: chorar, rir, até mesmo ficar irado...;
9. É importante que ele consiga se distanciar da obra a ponto de perceber o que ela verdadeiramente pede em cada linha;
10. Por fim, não pode nunca esquecer que a ansiedade não gera nem uma boa obra nem uma boa publicação.

VLT - Acredita que as editoras brasileiras ainda estão abertas aos autores que não possuem agentes literários?

MM - São tão poucas as agências literárias trabalhando para os escritores brasileiros - e mesmo em termos mundiais, talvez exista perto de uma dúzia - que, se os editores não aceitarem escritores brasileiros sem agentes literários, a oferta ficará muito menor do que a procura.
Mas há uma prática já consolidada nas editoras: não se perde tempo com textos mal-acabados. As primeiras páginas são decisivas para que o texto siga às mãos de um parecerista (um profissional contratado pela editora para escrever um relatório a favor ou contra a publicação da obra).
Assim, erros de ortografia, nem pensar em cometê-los! Erros, enfim, de gramática em geral são considerados graves.
Algumas dicas: ajuda muito mandar o original com a seguinte ordem: a) Capa: título, nome do autor, endereço, telefones e e-mail; b) biografia de quatro parágrafos com cinco linhas cada, no máximo; c) resumo da obra, sem contar o final da história e d) a obra em si. Outro dado importante é saber escolher a editora, pois não se pode mandar um Harry Potter para Editora Atlas, por exemplo, ou o último título de Marketing do Kotler para a Companhia das Letras... Nesse sentido, se o escritor for um bom leitor, ele saberá colher nas livrarias outras dicas importantes.

VLT - Quais os conselhos mais rotineiros para os escritores estreantes?

MM - Não conheço nenhuma fórmula química que alivie a tensão desse rito de passagem que leva o autor estreante a se consolidar ou tornar-se consagrado. Mas vale lembrar que a Lei de Direito Autoral, aprovada em 1998, oferece muitas vantagens ao escritor e ele deve consultá-la no site da Fundação Biblioteca Nacional. Um outro recurso que o escritor estreante pode utilizar é divulgar sua obra, por exemplo, entre professores de literatura brasileira nas universidades.
Como a Página da Cultura já lançou alguns nomes no mercado, como Romilda Raeder e Eduardo Garrafa, entre outros, confesso que já passamos por períodos durante os quais conseguimos ficar mais tensos do que os próprios autores.

VLT - Editores como José Olympio e Ênio Silveira estão fora de moda? Qual o perfil do editor brasileiro?

MM - As duas perguntas reúnem momentos históricos do mercado editorial brasileiro completamente diferentes.
Entre conversas com colegas do mercado cultural e editorial percebo que, até a década de 70, o Brasil tinha uma "comunidade" cultural coesa, o que facilitava os contatos entre autores, editores e intelectuais em geral. Mas agora, em 2005, a realidade mudou completamente, tornou-se muito mais complexa. E um exemplo dessa complexidade pode ser conferido, por exemplo, no site da Frankfurt Book Fair, especificamente na classificação proposta para ficção: adventure, movie or television Tie in, Gay&Lesbian, historical, horror, humour, literary, mistery&detective, novel, poetry, religious, anthologies, romance, science fiction, short stories, thriller, war, woman, classics, commercial, drama, erotica, family saga, fantasy, fair tales.
Ou seja, a gama de opções para linhas editoriais é muito maior do que no passado, o que reflete a solução administrativa que o mercado editorial oferece à complexidade da cultura. Agora, vamos imaginar, em termos empresariais, como a necessidade de atendimento diferenciado para cada uma dessas áreas, e também de um necessário retorno que seja ao mesmo tempo de marketing, editorial e comercial, obrigou a separação das figuras, antes unidas, do publisher e do editor... Hoje, existe nas editoras um profissional preocupado com a visão total do catálogo - publisher, enquanto outro (editor) - ou outros - se preocupa com o conteúdo, ou com as chamadas linhas editoriais.
Assim, voltando à pergunta, a relação direta e aparentemente simples da época de Ênio Silveira e de José Olympio com a época que estamos vivendo tornou-se praticamente impossível.

VLT - Você sente que a Literatura Brasileira carece de escritores que saibam contar boas histórias, assim como fizeram Jorge Amado e Érico Veríssimo no passado? Por que nossa obsessão com a forma?

MM - Nas boas histórias, para usar os termos da pergunta, forma e narrativa jamais estão separadas. E dois bons exemplos de como superar essa dicotomia são, em minha particular opinião, Guimarães Rosa e Umberto Eco.
A incomodidade que existe entre escolher uma ou outra (forma versus narrativa) reside no fato de não se privilegiar o leitor - aquele simples consumidor de histórias selecionadas no ato, aparentemente displicente, de folhear as páginas de um livro em uma livraria.
Se fizermos a opção pela forma, transformamos a linguagem em grande personagem. No elemento essencial da obra. A palavra, portanto, ganha a possibilidade de ser o elemento mais importante, o que também fascina certos leitores.
De outra maneira, caso o enredo seja o elemento mais importante, o autor corre o risco de gerar um produto de consumo fácil e descartável, que não perdure na história do gênero literário escolhido.
Assim, existe um pêndulo que aponta, sincronicamente, para os dois lados, e que deve ser cuidadosamente pensado pelo autor.
Na verdade, acredito que a obra sabe o que quer do autor, e sugiro aos autores que ouçam os pedidos de sua criação.

VLT - E a poesia? Julga possível um autor do status de um Drummond ou de um Manuel Bandeira nos tempos de hoje?

MM - A resposta mais simples seria: Por que não? A vida continua sensibilizando todos os poetas, exigindo deles que exprimam suas reações por meio dos versos. É comum, inclusive, aparecer na imprensa poetas "esquecidos", mas revigorados por novas leituras.
Outra resposta possível, agora bem-humorada, seria: Claro que sim!, pois diante da quantidade de poetas que afloram na colméia brasileira todos os dias, é impossível que não surja pelo menos uma abelha rainha.

VLT - Várias vezes ouvimos falar de um novo boom de contos depois dos anos setenta? Foi tudo fogo de palha? O que você acha das antologias temáticas?

MM - Nós continuaremos sempre a ouvir falar de "boom" de contos, apenas pelo fato de este ser um gênero literário vivo. Aliás, vivíssimo! E jamais devemos esquecer que o conto exige do autor uma precisão técnica, em termos de narrativa (forma versus conteúdo), maior que a novela e o romance.
Quanto à expressão "fogo de palha", considero-a muito forte para designar os contos que os críticos, a mídia e os prêmios literários não permitem que permaneçam na memória literária dos leitores.
Sobre as antologias, conformam um fenômeno complexo que não pode ser analisado na base do "achismo", pois elas atendem a várias necessidades diferentes: históricas, mercadológicos e até mesmo educacionais.