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MARISA MOURA é a simpatia em pessoa. Pós-graduada em Literatura
Brasileira como Ferramenta para Programas de Comunicação
Institucional e Marketing Cultural pela USP, é ela quem dirige A
PÁGINA DA CULTURA, uma agência literária que trabalha há mais de 10
anos aproximando autores e editoras - trabalho feito sempre com
muito critério, analisando cada caso, buscando interesses comuns,
respeitando as diferenças profissionais e, também, zelando pela
qualidade das relações.
No site da agência há diversas e importantes informações para
escritores neófitos e estabelecidos entenderem melhor o complexo
mercado editorial brasileiro. E você não precisa fazer parte do cast
da Página para solicitar um parecer especializado sobre seu livro
(que poderá ajudar MUITO). Confira o que essa menina tem a dizer!
Valdo Trindade - Há quanto tempo você atua
no Mercado Literário? Como surgiu a Página da Cultura?
Marisa Moura - Já tenho onze
anos de Página da Cultura. Vale ressaltar que, nos primeiros anos,
atuávamos mais com cultura - especificamente a área de marketing
cultural - do que como agência literária.
Esse desejo singelo que tive, de abrir uma empresa preocupada com a
literatura brasileira e com projetos especialmente voltados à
cultura, foi o resultado da pesquisa que realizei para minha
dissertação de Mestrado e que intitulei de "A parceria
empresa-literatura: a experiência brasileira".
Quanto ao nome da empresa, sua criação atendeu à nossa necessidade
de sermos, ao mesmo tempo, "página de livro" e "página de cultura".
VLT -
Como se dá seu processo de seleção dos autores? Prefere trabalhar
com gente nova ou conhecida?
MM - É preciso esclarecer que um
agente literário não trabalha nem só a obra nem só o autor. Aliás,
trata-se de uma parceria que eu gosto de chamar de "união
literária". A proposta da Página da Cultura sempre foi a de lançar
talentos literários. Todavia, o produto de cultura, incluindo-se o
livro, tem, historicamente, suas peculiaridades, principalmente no
que se refere aos diferentes momentos pelos quais ele
necessariamente deve passar, incluindo a fase de reconhecimento e
consumo, pelo público e pelos críticos. Então, apesar de sermos
influenciados, em primeiro lugar, pela qualidade da obra literária,
e de esse ser nosso primeiro interesse em relação a qualquer autor,
sempre avaliamos detalhadamente as possibilidades reais de
desenvolvermos uma relação produtiva e de confiança entre o agente e
o autor. Ou seja, uma parceria que acrescente elementos positivos à
relação profissional dos dois.
Atualmente, estamos reconsiderando a representação de escritores
inéditos que não tenham o hábito "quase compulsivo" de escrever
sempre. Não nos interessam os escritores sazonais, pois acreditamos
que a escrita só pode ser aprimorada com muita leitura e muito
exercício.
É preciso dizer, no entanto, que nenhuma agência literária negaria a
representação a um autor conhecido ou com um público leitor fiel. Da
mesma forma que é preciso deixar claro que, no dia-a-dia de trabalho
da Página da Cultura, tanto o autor iniciante como o reconhecido
geram a mesma quantidade de ações e preocupações, e sempre com a
mesma qualidade. O tempo que o agente investe para convencer os
editores a apostarem no novo, ele também usa para administrar as
relações editoriais de obras publicadas e de outros trabalhos
paralelos aos livros e aos diferentes autores.
O raciocínio acima também serve para referendar um dos pilares da
minha atuação profissional: o de não concordar com o fato de que uma
empresa do setor cultural eleja suas preferências movida
exclusivamente por opções financeiras. Minha primeira motivação será
sempre a cultura.
VLT - É possível avaliar o atual momento da
produção literária nacional sem submetê-la exclusivamente ao
mercado? Quantos são os originais que chegam até a Página?
MM - A Página da Cultura entende
que os instrumentos de avaliação da obra literária chegam sempre
após a sua produção. Nenhum crítico se antecipa ao seu tempo. Quanto
às decisões de publicação por parte das editoras, estas seguem
inúmeras variáveis e não cabe aqui relacioná-las.
Contudo, observando-se a imprensa, os eventos literários e as feiras
de livros, percebo que a literatura nacional tem mais destaque, mas
carece ainda de muito mais. De muito mais do que já conquistou.
A Página da Cultura tem investido na idéia de esclarecer os
escritores sobre todos os vetores que influenciam na publicação de
uma obra - o que também é, em minha opinião, papel de um agente
literário. Já nos primeiros contatos pedimos uma visita ao nosso
site, onde procuramos disponibilizar o máximo de explicações. E
outro ponto no qual insistimos bastante é o de o autor nunca nos
enviar seu trabalho sem agendar a data em que o receberemos. Claro
que toda essa programação só tem a preocupação essencial de atender
à grande quantidade de solicitações que temos, quase sempre cartas e
e-mails nos quais o autor fala de si mesmo e de sua obra, e não
necessariamente originais. Em média, são cerca de 100 contatos todos
os dias.
VLT - Qual a principal qualidade que você
enxerga num bom escritor para se firmar na carreira?
MM - Não falarei do que vejo
todos os dias, mas do que considero como os pontos ideais a serem
seguidos por um autor:
1. Que tenha lido os clássicos da literatura brasileira;
2. E também os clássicos da literatura mundial;
3. Se for contista, que tenha lido o suficiente para saber se produz
algo diferenciado ou não. E o mesmo vale para os autores de outros
gêneros;
4. Ele também deve acompanhar os lançamentos no gênero literário que
escolheu;
5. Precisa dominar o instrumental de seu ofício, ou seja:
ortografia, sintaxe, construção de enredos e personagens, passando
por todos os componentes de um estilo próprio, como, por exemplo, o
uso das figuras de linguagem;
6. Que ele desenvolva, como Flaubert, o hábito de ler em voz alta o
seu próprio texto, até que a sonoridade seja agradável, tenha
eufonia;
7. Que ele seja pai - e não padrasto - da obra que criou. Ou seja,
tenha prazer de falar sobre ela com a imprensa, professores, alunos
e leitores em geral;
8. Ele deve também se emocionar com o que escreve: chorar, rir, até
mesmo ficar irado...;
9. É importante que ele consiga se distanciar da obra a ponto de
perceber o que ela verdadeiramente pede em cada linha;
10. Por fim, não pode nunca esquecer que a ansiedade não gera nem
uma boa obra nem uma boa publicação.
VLT - Acredita que as editoras brasileiras
ainda estão abertas aos autores que não possuem agentes literários?
MM - São tão poucas as agências
literárias trabalhando para os escritores brasileiros - e mesmo em
termos mundiais, talvez exista perto de uma dúzia - que, se os
editores não aceitarem escritores brasileiros sem agentes
literários, a oferta ficará muito menor do que a procura.
Mas há uma prática já consolidada nas editoras: não se perde tempo
com textos mal-acabados. As primeiras páginas são decisivas para que
o texto siga às mãos de um parecerista (um profissional contratado
pela editora para escrever um relatório a favor ou contra a
publicação da obra).
Assim, erros de ortografia, nem pensar em cometê-los! Erros, enfim,
de gramática em geral são considerados graves.
Algumas dicas: ajuda muito mandar o original com a seguinte ordem:
a) Capa: título, nome do autor, endereço, telefones e e-mail; b)
biografia de quatro parágrafos com cinco linhas cada, no máximo; c)
resumo da obra, sem contar o final da história e d) a obra em si.
Outro dado importante é saber escolher a editora, pois não se pode
mandar um Harry Potter para Editora Atlas, por exemplo, ou o último
título de Marketing do Kotler para a Companhia das Letras... Nesse
sentido, se o escritor for um bom leitor, ele saberá colher nas
livrarias outras dicas importantes.
VLT - Quais os conselhos mais rotineiros
para os escritores estreantes?
MM - Não conheço nenhuma fórmula
química que alivie a tensão desse rito de passagem que leva o autor
estreante a se consolidar ou tornar-se consagrado. Mas vale lembrar
que a Lei de Direito Autoral, aprovada em 1998, oferece muitas
vantagens ao escritor e ele deve consultá-la no site da Fundação
Biblioteca Nacional. Um outro recurso que o escritor estreante pode
utilizar é divulgar sua obra, por exemplo, entre professores de
literatura brasileira nas universidades.
Como a Página da Cultura já lançou alguns nomes no mercado, como
Romilda Raeder e Eduardo Garrafa, entre outros, confesso que já
passamos por períodos durante os quais conseguimos ficar mais tensos
do que os próprios autores.
VLT - Editores como José Olympio e Ênio
Silveira estão fora de moda? Qual o perfil do editor brasileiro?
MM - As duas perguntas reúnem
momentos históricos do mercado editorial brasileiro completamente
diferentes.
Entre conversas com colegas do mercado cultural e editorial percebo
que, até a década de 70, o Brasil tinha uma "comunidade" cultural
coesa, o que facilitava os contatos entre autores, editores e
intelectuais em geral. Mas agora, em 2005, a realidade mudou
completamente, tornou-se muito mais complexa. E um exemplo dessa
complexidade pode ser conferido, por exemplo, no site da Frankfurt
Book Fair, especificamente na classificação proposta para ficção:
adventure, movie or television Tie in, Gay&Lesbian, historical,
horror, humour, literary, mistery&detective, novel, poetry,
religious, anthologies, romance, science fiction, short stories,
thriller, war, woman, classics, commercial, drama, erotica, family
saga, fantasy, fair tales.
Ou seja, a gama de opções para linhas editoriais é muito maior do
que no passado, o que reflete a solução administrativa que o mercado
editorial oferece à complexidade da cultura. Agora, vamos imaginar,
em termos empresariais, como a necessidade de atendimento
diferenciado para cada uma dessas áreas, e também de um necessário
retorno que seja ao mesmo tempo de marketing, editorial e comercial,
obrigou a separação das figuras, antes unidas, do publisher e do
editor... Hoje, existe nas editoras um profissional preocupado com a
visão total do catálogo - publisher, enquanto outro (editor) - ou
outros - se preocupa com o conteúdo, ou com as chamadas linhas
editoriais.
Assim, voltando à pergunta, a relação direta e aparentemente simples
da época de Ênio Silveira e de José Olympio com a época que estamos
vivendo tornou-se praticamente impossível.
VLT - Você sente que a Literatura
Brasileira carece de escritores que saibam contar boas histórias,
assim como fizeram Jorge Amado e Érico Veríssimo no passado? Por que
nossa obsessão com a forma?
MM - Nas boas histórias, para
usar os termos da pergunta, forma e narrativa jamais estão
separadas. E dois bons exemplos de como superar essa dicotomia são,
em minha particular opinião, Guimarães Rosa e Umberto Eco.
A incomodidade que existe entre escolher uma ou outra (forma versus
narrativa) reside no fato de não se privilegiar o leitor - aquele
simples consumidor de histórias selecionadas no ato, aparentemente
displicente, de folhear as páginas de um livro em uma livraria.
Se fizermos a opção pela forma, transformamos a linguagem em grande
personagem. No elemento essencial da obra. A palavra, portanto,
ganha a possibilidade de ser o elemento mais importante, o que
também fascina certos leitores.
De outra maneira, caso o enredo seja o elemento mais importante, o
autor corre o risco de gerar um produto de consumo fácil e
descartável, que não perdure na história do gênero literário
escolhido.
Assim, existe um pêndulo que aponta, sincronicamente, para os dois
lados, e que deve ser cuidadosamente pensado pelo autor.
Na verdade, acredito que a obra sabe o que quer do autor, e sugiro
aos autores que ouçam os pedidos de sua criação.
VLT - E a poesia? Julga possível um autor
do status de um Drummond ou de um Manuel Bandeira nos tempos de
hoje?
MM - A resposta mais simples
seria: Por que não? A vida continua sensibilizando todos os poetas,
exigindo deles que exprimam suas reações por meio dos versos. É
comum, inclusive, aparecer na imprensa poetas "esquecidos", mas
revigorados por novas leituras.
Outra resposta possível, agora bem-humorada, seria: Claro que sim!,
pois diante da quantidade de poetas que afloram na colméia
brasileira todos os dias, é impossível que não surja pelo menos uma
abelha rainha.
VLT - Várias vezes ouvimos falar de um novo
boom de contos depois dos anos setenta? Foi tudo fogo de palha? O
que você acha das antologias temáticas?
MM - Nós continuaremos sempre a
ouvir falar de "boom" de contos, apenas pelo fato de este ser um
gênero literário vivo. Aliás, vivíssimo! E jamais devemos esquecer
que o conto exige do autor uma precisão técnica, em termos de
narrativa (forma versus conteúdo), maior que a novela e o romance.
Quanto à expressão "fogo de palha", considero-a muito forte para
designar os contos que os críticos, a mídia e os prêmios literários
não permitem que permaneçam na memória literária dos leitores.
Sobre as antologias, conformam um fenômeno complexo que não pode ser
analisado na base do "achismo", pois elas atendem a várias
necessidades diferentes: históricas, mercadológicos e até mesmo
educacionais. |